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Capítulo 1: Eu, Eu mesmo e Nhanderecó.

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Segui até Sintra, na solidão daquelas estradas, entre carros, cavalos, peque- nas vilas e pessoas estranhas, mas me sentia bem, meio que livre novamente. Sintra é uma cidade reconhecida pela Unesco como patrimônio mundial e que fica lá no alto entre montanhas, ou seja, subidas! Muitas subidas! Désirée odiava subidas, queria ver a reação dela ali. Logo na entrada da cidade, uma turista num carro, em meio a vários outros carros num congestionamento em uma das estreitas ruas de Sintra, me chamou e tirou uma foto minha empurrando a Nhanderecó e seu peso todo. Todo suado, sem camiseta, quase morto! Ela se maravilhava com minha proeza e soltava palavras de apoio: - É isso aí, força! Muito bem.
Eu agradecia, sorrindo. Aquilo me enchia de orgulho e energia! Continuei subindo aquelas ruas estreitas, entre carros e ônibus lotados de turistas, com olhares de espanto e felicidade, Nhanderecó e Jão Frango.


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De Sintra pra Cascais eu desci num raio! Foi só descida! Na entrada da cidade parei num supermercado para recarregar minha bolsa com mantimentos e segui para um camping. Tirei 2 dias técnicos na cidade. Deixei Cascais pela manhã do dia 4 de Julho e continuei pedalando sentido Lisboa. Pedal rápido, porém complicado, tendo que ficar cortando entre carros, motos e caminhões numa avenida movimentada em plena manhã de uma segunda-feira. Pensa num lugar cheio de morro e paralelepípedo. Lisboa! Muito, mas muitos morros, as famosas pirambeiras! Principalmente na parte do centro histórico da cidade. Paralelepípedos e morros, e eu com uma bicicleta e seus alforjes lotados, já deu pra imaginar né? Era empurrar morro acima! Em Lisboa tirei mais 2 dias técnicos para visitar a parte antiga, nova e o oceanário da cidade.

Oceanário de Lisboa


E seguindo rumo ao sul...
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Alguns quilômetros adiante parei para observar uma colina (precipício), estava seguindo pelo caminho de terra olhando pra minha direita e fiquei curioso em saber o que tinha lá embaixo, já que não conseguia ver da estrada. E eis que avisto uma maravilhosa praia, ali, perdida, só pra mim! Só que era bem alto, e fiquei tentando achar formas de descer até lá. Até que avistei um casal que estava lá embaixo, desfrutando do paraíso e me questionava como eles haviam descido, hum... Deitei a bicicleta num arbusto e saí andando beirando a encosta e descobri que tinha uma trilhazinha no morro com uma corda fincada na terra para auxiliar na descida, e lá fui eu! Me sentia livre. Oras, seria porque eu estava livre?! Livre e despreocupado. Mente vazia, e esse esvaziamento me permitia curtir ao máximo aquele pedaço de mar e terra. Era um esvaziamento natural - e ao mesmo tempo estranho - da mente. E essa particularidade me libertava de qualquer tipo de desejo, e com isso, consequentemente, me aprofundando no tempo, no intransitório, mantendo minha mente e corpo repousando em mim, no momento, no presente. Fiquei lá por umas 5 horas. Ora pulando que nem macaco e correndo pra água, desbravando os arredores e hora sentado olhando pro nada, apenas sendo.

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E era sobre tudo isso que eu ia pensando enquanto pedalava pela N-120, sentido Lagos, no sul de Portugal, sobre o que eu julgava ser necessário e o que era supérfluo. Passando por Aljezur vi uma placa escrito Arrifana, como num lapso cerebral, um movimento involuntário e sem noção do que eu estava fazendo, decidi quebrar à direita e ir verificar como era a praia e o vilarejo. Claro, foram só subidas até lá! Mas como já estava pela redondeza, fui até o fim. Segui subindo e descendo até a fortaleza de Arrifana. Depois fui seguindo e retornei tudo até a N-120 novamente, dobrando à direita e seguindo sentido Lagos. Tem dia que acerta, tem dia que erra, faz parte. Mas numa dessas perdi um tempo considerável e não era nem a pressa a questão, o problema era que nesse vai e vem de lugares o sol já estava a pino quando retornei pra estrada sentido Lagos, um calor infernal e eu perdido no meio de algum lugar de Portugal...
- Ué, mas não quer se aventurar por aí, sozinho de bicicleta?
- Tá achando que é fácil? - Pensava, rindo e suando que nem um porco.


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Fui inventar de colocar na cabeça que eu tinha, porque tinha, que chegar em Lagos no mesmo dia, às vezes nem eu entendia isso... E após 80km, com muitas paradas pelo caminho para descansar, passar quilos de protetor solar no rosto e reclamar do sol, cheguei em Lagos! Estava enfim no extremo sul de Portugal, na região de Algarve, parte famosa pelas belas praias e também na região mais rica e cara do país. E tudo isso era bem visível enquanto pedalava pelas redondezas. Barcos e belas casas ao longo do percurso, e muito turista, principalmente no verão, onde os branquelos da região norte da Europa costumam passar suas férias.

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Enquanto eu e Dominick reclamávamos de dores de cabeça e fitávamos o alemão indo para a sua terceira latinha de breja, surgiu a ideia - dada pelo Dominick - de mudarmos de parque campal, porque o que estávamos era bem ruim, apesar da boa localização. Eu concordei com ele e assim foi, levantamos acampamento, nos despedimos dos franceses Asterix e Obelix, do alemão cachaceiro e fomos para outro parque campal, que ficava a 7km do centro de Lagos, na N-125. E depois de rodar bastante achamos onde deveríamos colocar nossas barracas, feito isso, tacamos os alforjes pra dentro, fechamos e saímos num pedal até a tal praia da Luz.

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A ideia era acordar cedo, mas enrolamos um pouco e acabamos saindo no mesmo horário de sempre, que não era tarde no sentido cronológico, mas no sentido temperatura, não ajudaria. E foi quente cara, puta merda, e seco também! Foram quase 60km pedalando até Albufeira, pedal tranquilo, só o calor que preocupava mesmo.

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Chegamos cansados, cada um arrumou sua barraca, joguei minhas coisas pra dentro da minha e fui tomar um banhão bem gelado! Depois pegamos nossos possantes de duas rodas movido a pedaladas e zarpamos para o centro da cidade, que a noite prometia! Era dia de final da Eurocopa, e advinhem quem jogaria a final? Sim, Portugal! Nem preciso falar como estava a expectativa do povo nas ruas, casas e bares! A cidade estava lotada, bandeiras por todos os lados e muitos turistas, aliás, só via turista ultimamente, língua portuguesa quase inexistia!

E adivinha quem foi campeão? 🇵🇹


Segui até Faro e depois para Fuseta...
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A única coisa boa do camping era a menina que trabalhava no restaurante (Ô lá em casa), tirei uma foto mental da bunda dela, matei 2 litros de água gelada (doeu o cérebro), escrevi um pouco e retirei-me para meus aposentos campísticos de terra dura com pedra.
Dia seguinte levantei bem cedo - again - e pedalei até Vila Real de Santo António, última cidade em Portugal antes de atravessar para a Espanha! Foram 43km de Fuseta até lá. Logo que cheguei em Vila Real percebi um lugar diferente e muito melhor do que os lugares que vinha passando desde quando saí de Albufeira. Na cidade, apesar de pequena, era notório a melhor organização e limpeza do local, melhor estruturado e com uma praia linda! Cheguei cedo em Vila Real e teria algumas horas pela vila antes de embarcar no barquito, decidi então parar em algum lugar para comer algo com calma. Meu último café da manhã em Portugal. Uma tosta mista de lombo (enorme) um galão e um suco de laranja enorme. Delícia! A garçonete logo percebeu meu sotaque, e enquanto o elogiava, começou a me perguntar coisas sobre a viagem. Continuou a elogiar meu sotaque e admirava minha coragem e determinação no que vinha fazendo e de como estava fazendo!
- É muita coragem para viajar desta forma, é só contar no mundo quantos que fazem o mesmo e verás... - Disse ela, sorrindo.

Olha ali a Espanha novamente!


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