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Capítulo 1: Eu, Eu mesmo e Nhanderecó.

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O navio atracou bem cedo no porto da cidade de Cherbourg, já em território francês. Não fazia ideia do que fazer e fui seguindo o pessoal do navio no melhor estilo “manada” de ser, segui pelos corredores e desci as escadas ao encontro da Nhanderecó, desamarrei-a, ajeitei os alforjes nela e segui, parei na primeira praça que avistei, sentei no banco e me perguntei: - Tá, e agora?


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Meu primeiro acampamento selvagem, numa sexta-feira 13! Mas o que me incomodou mesmo durante a noite não foi o Jason, e sim o vento forte e frio. Que noite fria e mal dormida! A minha primeira noite selvagem sozinho pelo inóspito até que não foi tão mal, tirando o fato de que taquei tudo pra dentro da barraca e mesmo antes da escuridão chegar, eu já estava intocado dentro do saco de dormir, rezando pro Jason não aparecer. Medo à parte, dormi como um anjo...não, não dormi.


Omaha Beach - Saint Marie D'Eglise
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Levantei bem cedo, arrumei todas minhas coisas, preparei e deixei a bicicleta pronta, comi um pão com alguma coisa e segui o rumo da roça em direção a Pont-Du-Hoc e Omaha Beach. Essa parte da normandia pela qual eu passei neste dia ficou muito famosa pelo fatídico “Dia D”, dia da chegada dos norte-americanos pela costa das praias que hoje chamam de Utah e Omaha. Na Pont-Du-Hoc é possível ainda ver os bunkers lá instalados para a guerra, e os enormes buracos no chão feitos pelas bombas que aterrissaram por lá. Ao percorrer o local pode-se ver fotos e relatos escritos sobre o que ocorreu ali naqueles dias de guerra e muito sangue. Em frente aos bunkers tinha um paredão de terra, que descendo dava na areia da praia e nas águas, o qual, segundo um dos relatos, era escalado por soldados norte-americanos, que tentavam a invasão e o domínio do inimigo, mas muitos dali não passavam, eram parados (lê-se mortos) pela força inimiga.


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Ainda, acreditem ou não, era tudo meio novo pra mim, aquela calmaria, sem ninguém conhecido por perto, sem saber ao certo onde ir. Sei que é cedo ainda pra qualquer tipo de sentimento ou definição de algo, mas me sentia realmente fazendo algo que nunca havia feito até então, imerso no novo.


Le Monte Saint-Michel
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O encontro com ela foi, confesso, uma surpresa. Claro que desde quando fiquei hospedado na casa da família dela, no meu primeiro dia de viagem, eu tinha cogitado o fato de poder rever ela um dia, por aí, pela vida, mas só cogitado mesmo, já sabendo que as chances poderiam ser pífias, quase nulas. Mas por mais otimista que poderia ser, não imaginaria que seria tão rápido o reencontro, e da forma que foi, praticamente um dia de conto de fadas, castelo, plebeu latino-tupi-americano, princesa francesa... ok, exagero à parte, foi um brasileiro e uma francesa num castelo com seus mil anos de idade, só isso.


Rennes.
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Era a hora do esperado, o famoso e tão falado (pela Diane) gallete! Que, segundo ela, é bem típico ali daquela região da Britânia. O gallete consiste numa massa, tipo panqueca, pedi um com ovo, presunto, queijo e um tipo de linguiça artesanal deles, também típica dali. Muito bom, mas não satisfez minha fome, e fui logo emendando um crepe com batatas fritas!


Nantes.
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Le Hangar à Bananes, um famoso local de exposições da cidade, mas a grande e mais famosa atração eram as Máquinas Animalescas Gigantes (Les Machines de l’île), tipo animais mecanizados em tamanhos reais.


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Enquanto seguia, eu avistava bonitos lugares à beira de um rio que eu acompanhava, eu ficava pensando:
- Que dia ótimo, vou é dormir fora, e jantar fora também...
- Por que não acampar ali ó? - Passei.
- Olha ali aquele gramado, perfeito! - Passado.
Sei lá, estava com preguiça de parar, via os lugares bonitos, mas ia pedalando no modo automático, até que, finalmente, parei numa entrada que ia direto pro rio e por ali me estabeleci. Saquei meu carregador solar e coloquei pra recarregar meus dispositivos tecnológicos ultra-modernos (lê-se celular velho quebrado e um GPS para bicicleta), e enquanto desfrutava do sol para recarregar todas as energias possíveis me acomodei num banco e mesa que havia no local. Notei alguns carros que iam entrando, paravam, ficavam um pouco e logo davam meia-volta e saíam, mas eu que não tinha nada com isso, continuei no mesmo lugar. E assim foi mais um dia que aqui vos escrevo, mais essa passagem, agora na beira do rio, ao som de pássaros tagarelas e da natureza que me rodeava. Só queria mesmo era um café!

Cognac

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Bordeaux, como chamam em francês, ou Burdigala, ou Bordèu, ou se preferirem Bordéus, em português. Cidade linda! A cidade me impressionava tanto pelo lado histórico quanto pelo lado moderno, com grandes avenidas, trens, ônibus, carros, bicicletas e pessoas, tudo bem sincronizado e em plena harmonia, tudo, de todos os jeitos e formas!


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Me encontrava em meio ao nada, num silêncio estranho e monótono, minhas pernas chegavam a pedalar no automático. Era tanta calma e paz que eu seguia absorvendo cada instante. Incrível como o cheiro de mato e madeira que sentia pelo caminho me transportava há outras época passadas, memórias brotavam na minha cabeça e um sorriso um tanto saudoso comigo mesmo se formava em meu rosto. Coisas do inconsciente, ele é perito nisso, com apenas um sentido te traz lembranças que nem você imaginava que poderia ter novamente. Lembranças boas de uma época livre e inocente, livre como estava, livre e perdido em meio a um país e continente que eu nunca imaginaria poder estar, fazendo o que eu vinha fazendo, da forma que vinha fazendo!
Eu pedalava só, mas parecia que estava seguindo com um bando de outros “eus”. Às vezes planejamos tanto pra nada e às vezes o que nunca se planeja acontece, e acontece da forma mais planejada possível, só que sem planeja- mento, me entende?


Arcachon.
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Parei em frente ao rio, olhava para todos os lados e nada de sinal de vida, hum... Talvez esse cavaleiro aqui merece um refresco após um longo e difícil dia, não? Sim! E assim foi, tirei toda a roupa e fui para a água pelado! Nu! Água gelada! Amendoim!


Biarritz.
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E agora rumo à St-Jean-Pied-de-Port para começar o Camino de Santiago de Compostela!
Essa parte da aventura concluída com sucesso, 21 dias pedalando e mais de 1.500km percorridos. Nenhum grande problema. Nenhuma grande ilusão. Um romance. Menos dinheiro no bolso. Alguns quilos a menos e bicolor. Au Revoir França, te vejo mais pra frente, do outro lado!


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